Encosta-te a mim
Encosta-te a mim, disseste,
naquela noite em que a cidade parecia maior do que nós,
e havia um frio estranho
que não vinha do inverno.
Estávamos sentados num banco qualquer,
desses que ninguém escolhe —
foi ele que nos escolheu, talvez,
porque já trazíamos o peso certo.
Falaste pouco.
Nunca foste de muitas palavras,
mas havia um tremor na tua voz
como se cada sílaba tivesse atravessado um deserto.
Encosta-te a mim, repetiste,
e dessa vez eu percebi
que não era um pedido leve,
era quase um último recurso.
Encostei.
E por um instante
os carros passaram mais devagar,
as luzes hesitaram,
e o mundo — esse mundo sempre apressado —
pareceu respeitar o nosso silêncio.
Contaste-me então, aos pedaços,
sobre perdas que não tinham nome,
sobre dias iguais
e noites longas demais.
Eu não soube responder.
Nunca sabemos, não é?
Ficamos ali, a inventar coragem
com o calor do outro.
Encosta-te a mim,
disseste pela última vez,
já com a madrugada a dissolver a cidade,
como se soubesses
que aquele gesto simples
era tudo o que ainda nos segurava.
E talvez fosse.
Porque quando te afastaste,
o banco voltou a ser só banco,
a rua voltou a ser ruído,
e eu fiquei com a certeza estranha
de que há histórias inteiras
que só existem
enquanto alguém se encosta a nós.





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