2026/05/10

Maria Bethânia Entre Nós

Estado de Poesia 

Canta Maria Bethânia, letra de Chico César - 2015


Não preciso de grandes alardes,
nem de fogo ardendo no peito.
Basta-me o teu silêncio de tarde,
 esse modo de me olhar, sem jeito.
O mundo lá fora grita urgências,
mas cá dentro o tempo descansa.
Trocamos certezas por convivências,
no ritmo suave de uma nova dança.
É quando o peito se abre, sem fresta,
e a vida parece uma eterna festa
mesmo que a música seja macia.
É nesse porto, nesse abraço de agora,
que a minha alma demora e mora
em pleno estado de poesia.


Abro as janelas da minha alma,
Dou livre acesso a Deus poetar
Em meu ser, em meu peregrinar,
Em meu viver, em todo meu amar.
Vivo em Estado de Poesia...

Carrego poesia em minha bagagem,
Faz parte da minha linda linhagem.
O meu poetar é minha linguagem,
Não sou série repetida em tiragem.
Vivo em Estado de Poesia...

Poesia, poetizar fazem Primavera
Acontecer e florir tudo em mim.
Num suave perfumar de jardim,
Envolvo-me em doce quimera.
Vivo em Estado de Poesia...

Minha relação é com a poesia,
Abranda penas, me dá alegria.
Minha vida torna-se pura magia,
Tenho por tudo, a boa sintonia.
Vivo em Estado de Poesia...

Poesia é estado da minha alma:
Contemplo tudo com todo coração,
Suspiro. Extasia-me, me acalma,
Adeus, inconveniente depressão!
Vivo em Estado de Poesia...





Pedro Abrunhosa Entre Nós

"Quem Me Leva Os Meus Fantasmas"

Canção de Pedro Abrunhosa & Os Bandemónio - 2007


O meu corpo aprendeu palavras que eu nunca quis saber,
nomes frios,
silêncios de hospital
e esperas que não cabem no relógio.

Há dias em que me sinto feita de vidro,
estilhaçada por dentro
e inteira por fora —
como se ninguém visse o conflito
a acontecer em mim.

Quem me leva os meus fantasmas
quando eles têm o meu nome
e moram na minha pele?

Quem me despe deste medo lento,
desta sombra que insiste
em sentar-se ao meu lado
mesmo quando o sol entra pela janela?

Mas eu continuo.

Com mãos cansadas,
com o coração aos tropeços,
com lágrimas que às vezes
não chegam a cair.

Continuo.

Porque há qualquer coisa em mim
que não aprende a desistir,
uma chama pequena
que recusa apagar-se
mesmo quando o vento grita mais alto.

Quem me leva os meus fantasmas?
Ninguém.

E talvez — só talvez —
isso não seja o fim.

Talvez eu esteja a aprender
a atravessá-los,
a respirar dentro deles,
a existir apesar deles.

E no meio desta luta,
entre cicatrizes e recomeços,
descubro, devagar,
que ainda há vida a crescer em mim —

não apesar de tudo,
mas com tudo.


Acima das Sombras 

Vislumbro meus fantasmas, 
Eles  não me amedrontam.
Tentam minar  resistências,
A me sucumbir, avançam.
Quem me leva os meus fantasmas?

Visualizo meus fantasmas, 
São guerreiros insistentes,
Não me intimido, resistentes
Elos me alegram, animam.
Quem me leva os meus fantasmas?

Contemplo meus fantasmas, 
Eles não me desesperam.
A lutadora, fênix combatente,
Tem um ânimo bem contente. 
Quem me leva os meus fantasmas?

Medito os meus fantasmas, 
São sombras em devaneios. 
Não passam de meros meneios, 
Ultrapasso todas as fronteiras.
Quem me leva os meus fantasmas?



🪗​🎸​🎹​

2026/04/30

Chico Buarque Entre Nós

Queridos amigos, se bem se lembram, no nosso blog já homenageámos: Seguidores Amigos, Escritores Consagrados e Pintores Clássicos.

Depois de uma pequena "pausa" para os "Duetos de Amor", vamos dar continuidade homenageando Músicos Consagrados

Vamos alternar entre músicos do Brasil e de Portugal, nesta nossa forma simples e livre de poetar. Obrigada por continuarem "Entre Nós." 💛


🎻​🎺​🎤​

"Construção"

Canção de Chico Buarque -1971

"Amou daquela vez como se fosse a última"


Na curva breve dos dias apressados,
onde o tempo escorre entre os dedos distraídos,
houve um instante suspenso —
quase eterno, quase nada.

Olhou o mundo como quem se despede
sem dizer adeus,
como quem guarda no silêncio
tudo aquilo que nunca coube nas palavras.

E então, sem medo do abismo ou do depois,
sem cálculo, sem medida,
"amou daquela vez como se fosse a última".

Não pediu promessas ao futuro,
nem cobrou certezas ao destino.
Apenas deixou o coração aberto,
vulnerável como a primeira luz da manhã.

E nesse gesto inteiro, tão raro,
fez do efémero infinito,
fez do instante uma vida,
fez do amor — verdade.



"Amou daquela vez como se fosse a última",
entregou-se, doou-se inteiramente.
Sentia algo no ar, como um aviso prévio.
encheu-se de esperança, docemente.

Naquele amor derradeiro, de convívio
inusitado, tinha tido já a penúltima
convivência feliz antes da tragédia,
não se enganou, ela lhe tirou a alegria.

Um amor não terminado, interrompido,
sem ter seu coração se corrompido.
Um abatimento cruel, sem cura viável,
 não teve o fim da despedida, é lamentável.

No abraço, amou numa intensidade ímpar,
entregou-se sem saber ser a única  vez.
Não teve mais a chance de um talvez,
deu seu tudo, corpo, alma, sem lamentar.


🪗​🎸​🎹​