sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

Fronteiras Internas


Sabia
que aquela lágrima teimaria,
quando não previa,
ela caía.
 
Vivia
esperando o dia
em que lágrima desistiria,
pura utopia.

Se envolveu
 num véu
 cor do céu
e a lágrima escondeu…

(mas ela reapareceu)



Fronteiras Internas

Avanço com positividade,
recuo com receio do pior.
Progrido com esperança,
volto com insegurança.

Despenco-
                            me
Envolta num véu.

Exponho-me ao ar livre,
sou liberdade intrínseca.
Retenho-me no isolamento,
sou acuada em lamento.

Despenco-
                          me
Envolta num véu.

Durmo na espreita atenta,
sonho com nuvens azuis.
Esbarro-me em retorno.
não segura ao entorno

Despenco-
                           me
Envolta num véu.

Vejo-me limitada em ação,
sou fronteira sem expansão.
Verso livremente, temente,
independente, docemente.

Despenco-
                            me
Envolta num véu.


*


Nossa sugestão musical: Andrea Bocelli - Perfidia 
imagem: mariska karto


~~*~~

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

MANUELA BARROSO ENTRE NÓS


PERDI AS PALAVRAS

 dentro de mim.

  Esconderam-se dentro dos mil pensamentos

que guardo na estante do meu cérebro.

 Vejo-as espreitar

pelas folhas gastas dum livro de poesia.

Tento apanhá-las,

 mas elas fogem e ficam muito quietinhas

atrás do coração.

Agora sim apanhei-vos,

pois no coração as palavras ficam cativas para sempre.

Pensava eu…

Mas estas são diferentes

desceram até ao ventre

não têm salvação.



PALAVRAS

Sobe o tempo na ampulheta da vida
Cai o pó esférico
Gota a gota
Numa calma
Desmedida.
E as palavras sobram
Em estáticos sentimentos
Procurando à deriva
Dar forma ao pensamento.

Entrelaçadas nos olhos
São a luz e são a cor
Entrelaçadas nas mãos
São presença e vida
Amor
Entrelaçadas nos sons
São música na poesia

…E na ausência de laços
Eis a porta que se fecha
Dentro de uma casa vazia!





SEM PALAVRAS

Às vezes,

saio de mim,

entro noutra realidade,

como se estivesse num rio,

ou num riacho,

nalguma cachoeira,

talvez  num lago,

quiçá numa gruta de paz,

numa caverna insondável 

de mistérios coloridos,

como a visão de um arco-íris,

borboletas ao redor

em belos jardins

primaveris.


Às vezes,

saio de mim,

habito outra órbita,

contemplo estrelinhas,

douradas, cintilantes,

águas dum lago

não geladas, 

morninhas, cálidas,

numa quimera de amor,

sem correnteza forte,

como bruma de espuma,

com fiapos de raios solares

por entre o breu da floresta

encantada.


Às vezes,

percorro estradas,

com neve,

pelas montanhas nos alpes,

subo trilhas,

chego ao cume,

tenho visão deslumbrante,

casas com lareira,

árvores invernais,

folhas secas,

com vestígios de caramelo,

lareiras acesas,

chaminés fumegando.


Às vezes,

sou a chama da fogueira,

O vento, a chuva fina,

o temporal,

a torre de uma igreja

com um sininho,

desde o nascente

ao poente,

uma ovelha do rebanho,

com vontade de me deitar,

dormir um sono longo de paz,

sem palavra alguma,

no paraíso terrestre,

acordar ternamente.



*


sugestão musical: Vanessa Camargo: As Palavras 
imagem: Georgy Kurasov

*

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Procela


 Ó Procela

Porque me atormentastes em tarde de calmaria
 e mudaste o rumo da minha travessia.

Meu barquinho navega em desatino
remando, remando, sem destino.

Ó Procela

Estou exausta de tanto voltear sem sair do mesmo lugar,
bonança te peço, a procela tens que acalmar.

Meu barquinho vou ter que equilibrar
 remando, remando, até ancorar.

2022








Procela

Dor imensa, enlutada, 
Jamais me larga,
Desesperada,
Ó procela!

Dor dilacerante,
Rasga minh'alma,
Nada tem de inocente,
Ó procela!

Dor esfuziante,
Maldosa e contagiante,
Amargosa e angustiante,
Ó procela!

Dor sem medida,
Inconsequente,
Alucinante,
Ó procela!



*


Nossa sugestão musical: El viejo y el Mar
imagem: Ivan Aivazovsky


*