Pedra Filosofal
Canta Manuel Freire - 1993
Poema de António Gedeão
"O sonho é a nossa pedra filosofal"
Há quem olhe em redor e só veja o cansaço,
um tempo cinzento que corre sem parar,
onde o homem, perdido nas suas próprias máquinas,
vai esquecendo que o sonho é fundamental.
Mas quem guarda o espanto intacto na alma
sabe que a vida é mais do que esta estrada plana.
O sonho é a nossa pedra filosofal.
Sonhar é refúgio onde a chuva não nos toca,
o escudo macio contra a dureza dos dias,
é a força secreta que o peito escolhe,
quando o mundo lá fora se torna infernal.
Mudar a dor em asas, a lama em claridade
é a nossa maior e mais antiga verdade.
Sonhar é a nossa pedra filosofal.
Não deixemos morrer o condão do desejo,
essa chama frágil que nos torna humanos,
enquanto formos capazes de imaginar o impossível,
venceremos unidos o medo existencial.
Seremos os alquimistas deste tempo presente,
segurando firmes, contra qualquer tempestade.
Sonhar é a nossa pedra filosofal.
"Ode à Minha Pedra Filosofal"
Verdejar é muito me encantar
Estar de bem com minha vida.
Perpetuar meu ânimo, alegrar,
Valer a pena registrar a lida.
Torno-me uma pedra filosofal.
Vejo flores a se contemplar,
Alegram bem as minhas saídas,
Animam minha alma algo caída
Num doce gesto de admirar.
Torno-me uma pedra filosofal.
Ar livre muito me impulsiona
Tudo nele me impressiona.
Gosto de bem apreciar, aderir
À esperança do novo porvir.
Torno-me uma pedra filosofal.
Sou uma andarilha da vida
No meu caminhar desprovida.
Entre retas e curvas, medito,
Ponho-me orante: bendito!
Torno-me uma pedra filosofal.
Curioso, interessante adorno,
Fico a admirar ao meu entorno.
Fotografo, tudo nele me alegra
Estou sempre bem desperta.
Torno-me uma pedra filosofal.
Desfrutar de um belo lugar
É ter vida plena! Muito amar!
Encontro um belo propiciar,
Faço de tudo para me alegrar.
Torno-me uma pedra filosofal.
Animais refazem minha alegria,
Caminhar retorna minha energia,
Tenho lugar garantido, certeza,
Saio à natureza com presteza.
Torno-me uma pedra filosofal.
Entre várias curvas e reta,
Caminho com mente aberta.
Não deixo passar nadinha,
Tudo me adoça, me aninha.
Torno-me uma pedra filosofal.
Cada canto é um belo alento
Neste doce e verde recanto.
Fico deslumbrada, bem feliz…
Como minha condição condiz.
Torno-me uma pedra filosofal.

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.
Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
para-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultrassom, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

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