2026/05/17

Jorge Palma Entre Nós

Encosta-te a mim 

Canção de Jorge Palma- 2007     

    

Encosta-te a mim

Encosta-te a mim, disseste,
naquela noite em que a cidade parecia maior do que nós,
e havia um frio estranho
que não vinha do inverno.

Estávamos sentados num banco qualquer,
desses que ninguém escolhe —
foi ele que nos escolheu, talvez,
porque já trazíamos o peso certo.

Falaste pouco.
Nunca foste de muitas palavras,
mas havia um tremor na tua voz
como se cada sílaba tivesse atravessado um deserto.

Encosta-te a mim, repetiste,
e dessa vez eu percebi
que não era um pedido leve,
era quase um último recurso.

Encostei.
E por um instante
os carros passaram mais devagar,
as luzes hesitaram,
e o mundo — esse mundo sempre apressado —
pareceu respeitar o nosso silêncio.

Contaste-me então, aos pedaços,
sobre perdas que não tinham nome,
sobre dias iguais
e noites longas demais.

Eu não soube responder.
Nunca sabemos, não é?
Ficamos ali, a inventar coragem
com o calor do outro.

Encosta-te a mim,
disseste pela última vez,
já com a madrugada a dissolver a cidade,
como se soubesses
que aquele gesto simples
era tudo o que ainda nos segurava.

E talvez fosse.

Porque quando te afastaste,
o banco voltou a ser só banco,
a rua voltou a ser ruído,
e eu fiquei com a certeza estranha
de que há histórias inteiras
que só existem
enquanto alguém se encosta a nós.



Um Simples Recostar

Havia ardor, calor, amor
No instante de carinho,
Era como fogo no ninho,
Logo vinha combustão,
Era só tocar o coração.

Acender toda sensação
Requer delicado jeitinho,
Fumaça ferve na emoção,
Arrepia, exala sintonia.

Dois sentimentos, harmonia,
Pertença fervida na alegria,
Dá prazer à vida, serotonina.
Recosta-te em mim, adrenalina.

Basta delicado toque
Para fazer combustão.
Encosta-te em mim...
Faz-se o amor emoção. 

Amor é belo retoque,
Modela corpo e alma,
Basta um pequeno empurrão,
Quer-te bem, com o coração.

É como choque levar,
Fósforo do contato faz
Aquecimento, não desfaz.
Sabor é abrasamento, amar.





Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anosEncosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerarEncosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganosNão queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar
Chegado da guerra, fiz tudo pra sobreviverEm nome da terra, no fundo pra te merecerRecebe-me bem, não desencantes os meus passosFaz de mim o teu herói, não quero adormecer
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigoO que não vivi hei de inventar contigoSei que não sei, às vezes, entender o teu olharMas quero-te bem, encosta-te a mim
Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezesVizinha de mim deixa ser meu o teu quintalRecebe esta pomba que não está armadilhadaFoi comprada, foi roubada, seja como for
Eu venho do nada porque arrasei o que não quisEm nome da estrada onde só quero ser felizEnrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimadaVai beijar o homem-bomba, quero adormecer
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigoO que não vivi, um dia hei de inventar contigoSei que não sei, às vezes entender o teu olharMas quero-te bem, encosta-te a mimEncosta-te a mimQuero-te bemEncosta-te a mim

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