Encosta-te a mim, disseste,
naquela noite em que a cidade parecia maior do que nós,
e havia um frio estranho
que não vinha do inverno.
Estávamos sentados num banco qualquer,
desses que ninguém escolhe —
foi ele que nos escolheu, talvez,
porque já trazíamos o peso certo.
Falaste pouco.
Nunca foste de muitas palavras,
mas havia um tremor na tua voz
como se cada sílaba tivesse atravessado um deserto.
Encosta-te a mim, repetiste,
e dessa vez eu percebi
que não era um pedido leve,
era quase um último recurso.
Encostei.
E por um instante
os carros passaram mais devagar,
as luzes hesitaram,
e o mundo — esse mundo sempre apressado —
pareceu respeitar o nosso silêncio.
Contaste-me então, aos pedaços,
sobre perdas que não tinham nome,
sobre dias iguais
e noites longas demais.
Eu não soube responder.
Nunca sabemos, não é?
Ficamos ali, a inventar coragem
com o calor do outro.
Encosta-te a mim,
disseste pela última vez,
já com a madrugada a dissolver a cidade,
como se soubesses
que aquele gesto simples
era tudo o que ainda nos segurava.
E talvez fosse.
Porque quando te afastaste,
o banco voltou a ser só banco,
a rua voltou a ser ruído,
e eu fiquei com a certeza estranha
de que há histórias inteiras
que só existem
enquanto alguém se encosta a nós.
Um Simples Recostar
Havia ardor, calor, amor
No instante de carinho,
Era como fogo no ninho,
Logo vinha combustão,
Era só tocar o coração.
Acender toda sensação
Requer delicado jeitinho,
Fumaça ferve na emoção,
Arrepia, exala sintonia.
Dois sentimentos, harmonia,
Pertença fervida na alegria,
Dá prazer à vida, serotonina.
Recosta-te em mim, adrenalina.
Basta delicado toque
Para fazer combustão.
Encosta-te em mim...
Faz-se o amor emoção.
Amor é belo retoque,
Modela corpo e alma,
Basta um pequeno empurrão,
Quer-te bem, com o coração.
É como choque levar,
Fósforo do contato faz
Aquecimento, não desfaz.
Sabor é abrasamento, amar.
Encosta-te a mim, nós já vivemos cem mil anos Encosta-te a mim, talvez eu esteja a exagerar Encosta-te a mim, dá cabo dos teus desenganos Não queiras ver quem eu não sou, deixa-me chegar
Chegado da guerra, fiz tudo pra sobreviver Em nome da terra, no fundo pra te merecer Recebe-me bem, não desencantes os meus passos Faz de mim o teu herói, não quero adormecer
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo O que não vivi hei de inventar contigo Sei que não sei, às vezes, entender o teu olhar Mas quero-te bem, encosta-te a mim
Encosta-te a mim, desatinamos tantas vezes Vizinha de mim deixa ser meu o teu quintal Recebe esta pomba que não está armadilhada Foi comprada, foi roubada, seja como for
Eu venho do nada porque arrasei o que não quis Em nome da estrada onde só quero ser feliz Enrosca-te a mim, vai desarmar a flor queimada Vai beijar o homem-bomba, quero adormecer
Tudo o que eu vi, estou a partilhar contigo O que não vivi, um dia hei de inventar contigo Sei que não sei, às vezes entender o teu olhar Mas quero-te bem, encosta-te a mim Encosta-te a mim Quero-te bem Encosta-te a mim
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« Quando um passarinho beija docemente uma flor e ela o acolhe com carinho, a magia da amizade acontece. »
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