Portal Da Cor
Milton Nascimento-1985
Portal da Cor
O chão que pisamos já não nos conhece,
o rio que corre não bebe a canção.
Na pressa do homem, a terra adoece,
há um muro invisível de desunião.
Esquecemos o sopro que gera a semente,
fechamos os olhos à teia vital.
O bicho e a folha caminham à frente,
enquanto nós somos o corte e o mal.
Ouve o gemido que vem da floresta,
o vento que racha, a chuva que cai.
A dor desta Terra já não se cala,
é um grito pungente que vem e não vai.
O mar retrocede, o sol nos avisa,
o clima alterado anuncia o terror.
A vida suplica em cada brisa,
para cruzarmos o portal da cor.
É hora de ver o verde e o vivente,
curar a fratura, sentir o clamor.
Voltar para o útero do continente,
e abrir, finalmente, o portal da cor.
Envolve-me de pura realeza,
Põe-me em um estado de graça,
Inspirando-me, sem arruaça
Um verdadeiro portal da cor...
Tudo ao redor me fala do Divino,
O Criador me inspira tal um hino
De louvor ante à bela Mãe Gaia,
Só desejo uma água, ela caia.
Um verdadeiro portal da cor...
Sinto um frescor ante o verde,
Como é belo o sol no auriverde!
Respiro profundamente temente
Ao doce Artesão tão benevolente.
Um verdadeiro portal da cor...
Diante da Criação, sou a criatura
Feliz, agradecida à sua Escritura.
Só o Bom Deus pode tecer assim
Um hino tão oportuno, eu digo sim.
Um verdadeiro portal da cor...


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