Nem às Paredes Confesso
Amália Rodrigues - 1957
A vida corria certa e sem aviso,
O corpo forte desafiava o vento,
Mas a doença apaga-nos o riso,
Mudando o rumo num momento.
À nossa volta ergue-se o carinho,
A família estende a mão com devoção,
Ninguém nos deixa caminhar sozinho,
Mas há combates só do coração.
Por trás do laço que nos prende e salva,
Há uma sombra que eu sozinha meço,
Nas horas frias da matina alva,
Nem às paredes confesso.
O amor abraça a dor que se repara,
Mas o silêncio é o meu único abrigo,
Pois o destino, quando a vida pára,
Guarda o segredo do que sofro e sinto.

Tenho segredos só meus
Existem apenas entre mim e Deus
Nada há de oculto entre nós.
Tenho segredos sagrados,
Meu coração magoado
Não conta aos ingratos.
Meus sigilos são mágicos,
Não são graves nem trágicos,
Apenas vivências guardadas.
Meus sigilos, sinceros relatos,
Não é necessário publicar
Minha experiência a desfolhar.
Como são secretos sonhos,
Nem às paredes confesso,
O silêncio é a alma do sucesso.
